quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O sacramento do Matrimônio

Como sabemos, nem todas as criaturas de Deus se reproduzem por ato sexual. A forma de vida mais simples, a célula, se reproduz espontaneamente se dividindo em duas. Mas à criatura humana, a única criatura a qual identificou como feita à sua imagem e semelhança, Deus determinou que a reprodução se daria por ato sexual. O que teria levado Deus a isso?

Para entender melhor, precisamos pensar no plano de Deus como um todo. Não é só o homem que é a imagem e semelhança de Deus, tampouco a mulher. Mas os dois juntos, o casal, refletem a imagem e semelhança de Deus. E se Deus é amor – e sabemos que é – então isso significa dizer que o homem e a mulher são, juntos, o retrato de Deus, que alcança suas cores na plenitude no amor.

O “sede fecundos e prolíferos” (Gn 1,22.28) está orientado ao amor. No amor, é possível crescer em estatura e em sabedoria, tal como ocorreu com Cristo. Deus é abundância, é fartura, é generosidade. Seu amor ensina-nos esses valores, e de tal forma é que deseja que amemos. “Eu vim para que os homens tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Essa abundância e generosidade abraçam a afetividade e a sexualidade, devidamente harmonizados e orientados ao amor. Por isso, a relação entre o homem e a mulher, entre o conceito mais conservador (e antigo) de casal, envolvendo afetividade e sexualidade, é sagrada. E se hoje à dúvidas e confusão a respeito disso, sobre os distúrbios afetivos, sexuais e até em torno do conceito do que seja um casal, não é por conta de Deus.

Na criação, havia harmonia perfeita entre homem e mulher, e entre estes e as demais criaturas, assim como com o criador. Mas isso tudo foi rompido com o primeiro ato deliberado de desobediência. O amor foi quebrado com a falta de harmonia entre o homem e a mulher, que já no primeiro erro se esquivavam de suas próprias culpas. E mesmo procurando o amor, não estão livres das ciladas de uma afetividade frágil e de mal-entendidos, por mais maduros que sejam. E no dia-a-dia, as provas são cada vez mais frequentes, criando armadilhas num relacionamento mal embasado, construído sobre a areia.

Da mesma forma, a criação da família é um verdadeiro desafio. Os dois, com suas limitações, são desafiados a educar seus filhos dentro do plano de Deus, apesar de toda a influência do mundo. E precisam fazer isso mediante uma vida de testemunho, e não apenas em palavras. Transmitir os melhores valores, as melhores virtudes.

Dentro do plano de Deus, a redenção alcança, num primeiro momento, a família. O casal – o homem e a mulher – têm sua dignidade parcialmente devolvida quando Jesus Cristo eleva o Matrimônio ao status de Sacramento. Não sabemos exatamente quando ele fez isso, pois não foi explicitamente posto nas Escrituras, mas foi ensinado e transmitido pela tradição dos apóstolos desde o primeiro séculos.

O Evangelho escrito por São João conta como aconteceu o primeiro milagre de Jesus. Foi num casamento, no episódio conhecido como “bodas de Caná”. Um dos destaques do evento se dá pelo fato de que, mesmo dando a entender que não se manifestaria na ocasião, ele realiza o primeiro milagre, o que provoca a reação de fé em seus discípulos, que creram nele.

Num outro episódio, Jesus deixa claro que, se Deus estabeleceu, através de Moisés, o divórcio, foi por causa da dureza em seus corações. Mas deixa claro que no princípio não era assim, e que “não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19,4-8). Não é um pedido ou uma recomendação: é uma ordem.

Mas o que é que Deus uniu? Como saber se um Matrimônio é realmente legitimo? Quais os sinais? Há alguns requisitos que os noivos precisam atender, como a livre decisão. Tais requisitos devidamente atendidos, o Matrimônio realiza-se mediante os consentimentos maritais mútuos ordinariamente na presença de um representante da Igreja Católica (um presbítero ou diácono).

Um fato curioso é que, de tão sublime, os ministros do Matrimônio são o homem e a mulher que se dão em casamento. O sacerdote (ou diácono) é apenas um representante da Igreja, necessário.

Para os católicos, o Matrimônio é uma exigência antes de coabitar. A união civil, de fato ou jurídica não caracterizam o Matrimônio e são denunciados pela Igreja pelo pecado da Fornicação. Pecados mortais habituais durante todo o tempo de convivência até que se recebam em Matrimônio. Mas tal exigência não se aplica a cristãos não-católicos, que se casam em outras igrejas, que se casam apenas no civil. Nesse caso, não há culpa, pois não receberam tal mandamento.


Por ser um Sacramento, o Matrimônio garante aos que o recebem graças especiais para o cumprimento das promessas consentidas. Por isso, a vantagem em receber tal sacramento, em vez de simplesmente coabitar, está na garantia de tais graças que permitiram passar por todos os obstáculos decorrentes da vida em comum. As graças que forem necessárias serão prontamente recebidas, através dos méritos de Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro padrinho do casamento, o fiador, que garantirá todos os dons necessários para que qualquer dívida seja paga. Ele, que amou a sua Igreja e se entregou por ela tal como deseja que cada cônjuge ame seu parceiro e por ele se entregue, em qualquer circunstância em que Cristo se entregaria.

Ao longo da vida, sentiremos dó de quem parece relegado a grande sofrimento por fatalidades da vida, em torno da escolha do cônjuge. Adultérios, perda da razão, violência e abandono... tudo parecerá justificativa para que ninguém tenha que se submeter ao sacrifício de uma vida inteira de solidão, incompreensão, de cruz. Parecerá que até mesmo Deus está sendo exigente e cruel com quem passa por isso. Mas a cruz é a resposta, e assim como muitos pecaram, e a consequência do pecado de muitos passa por todos, alguns terão que passar por uma cruz dessa natureza. E não será permitido obter novo cônjuge até que o anterior venha a falecer. Essas pessoas terão que buscar, incessantemente, ao Cristo. E receberão, dia após dia, forças para superar as dores e angustias. Mas as dores do tempo presente em nada se comparam com a glória que há de se manifestar.

O que aconteceria se qualquer das razões fosse permissão para que o divórcio fosse dado? Imaginemos: adultério. Como seria fácil, num caso de frustração, consegui-lo para obter o divórcio? Ou abandono: a mesma coisa. Mais amplamente, observemos em momentos de extremo sacrifício, a permissão para renunciar o peso da cruz. O que seria dos mártires, que deram a vida até a morte, para defender a sua fé? Estaríamos dizendo: no último momento renunciem à sua fé, apenas de brincadeira, para que continuem vivos. É isso?

Os mais fracos ou de menos fé não resistirão e buscarão casar novamente. E por isso há até quem saia da Igreja Católica para obter uma bênção de um pastor que nenhum padre daria, um prêmio de consolação. Mas o fato de que algumas legislações ou igrejas (não-católicas) permitem o novo casamento, não significa que a nova união será aceita pelo corpo místico de Cristo, que é a Igreja. Na melhor das hipóteses, teremos pecado legalizado. Essas pessoas, embora continuem a ser acolhidas no seio da Igreja, não poderão receber os sacramentos da Eucaristia e da Penitência. Algumas posições de liderança também não lhe serão delegadas. Porque, para todos os efeitos, estão vivendo um pecado de forma pública e contínua.

Não se trata de um ato de intransigência da Igreja. O fato é que nenhum poder na Terra pode obter o divórcio diante de Deus. Nem mesmo o Papa, não importa o preço disso – mesmo que em detrimento da fidelidade desses, haja um rompimento, ou uma cisão da Igreja, como no caso da Anglicana. A fidelidade da Igreja a Cristo é inegociável, e se a Igreja não permite o divórcio é por fidelidade ao próprio Cristo, que assim determinou.

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