sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Podemos realmente confiar em Deus?

Artigo baseado na entrevista de Zenit ao Pe. Thomas D. Williams, LC, autor do livro «Can God Be Trusted? Finding Faith in Trouble Times»

Um grande problema enfrentado pelos católicos é a crise de confiança em Deus. Isso porque, em nossas relações interpessoais, encontramos traição de pais, de amigos, de esposos, de sacerdotes, de instituições... por isso, questiona-se também a fidelidade de Deus, e esta falta de confiança pode destruir nossa vida espiritual.

O tema da confiança é muito comum, e muitas de nossas dificuldades na vida espiritual estão de algum modo ligadas a uma falta de confiança em Deus. Por outro lado, é admirável como a Bíblia –por exemplo, no livro dos Salmos– insiste na importância da confiança em Deus como núcleo de uma vida espiritual. Deus quer que se tenha confiança e quase nos implora que dependamos dele incondicionalmente. Não existe nada mais difícil nem importante para a vida cristã.


Às vezes estas dificuldades vêm de uma série de traições geradas na infância. Custa para as pessoas que se sentem enganadas por seus pais, por exemplo, confiar em Deus (que se apresenta como Pai).

Outros experimentaram as traições de sacerdotes, que ferem profundamente suas relações com Deus e com a Igreja. Alguns vão ao ponto de culpar a si mesmos, pois acreditam que não são dignos da fidelidade dos outros. E quando há este sofrimento nas relações interpessoais, é difícil que não haja influência na relação com Deus.

Já outros se sentem traídos por Deus. Muitas pessoas dizem que já deram plena confiança a Deus, mas Ele teria falhado. Confiaram nele, mas ele não ofereceu nada. Esta tende de ser uma das experiências mais dolorosas da vida.

O primeiro passo para recuperar a confiança pode vir da compreensão de que Deus não é indiferente a nosso sofrimento. Não é apático, nem distante, nem despreocupado. Na verdade, ele “sente nossa dor” inclusive mais profundamente que nós mesmos. Não foi esta a mensagem da cruz, em que Jesus Cristo escolheu padecer conosco?

É essencial, em nosso relacionamento com Deus, ajustarmos nossas expectativas sobre Ele sem falsas ilusões. Muitas vezes, nossas experiências de traição procedem de um mal-entendimento fundamental: esperamos que Deus cumpra as promessas que nunca fez, em vez de aproveitar plenamente as promessas que nos fez. Todos temos necessidade de comentar nossas expectativas sobre Deus. Quem é Deus para mim? O que Ele me prometeu? O que posso esperar Dele que nunca foi oferecido?

Por exemplo, Jesus Cristo jamais prometeu que, se o seguíssemos tudo seria mais fácil em nossas vidas. Não prometeu segurança no emprego, nem liquidez econômica, nem saúde perfeita, nem casamentos ideais nem muitas outras coisas que de fato gostaríamos. O fato é que, aos seguidores, Jesus Cristo prometeu uma parte de sua cruz todos os dias.

As coisas que normalmente esperamos de Deus (e sobre as quais nos chateamos quando não recebemos) são os bens temporários e não eternos. Dói-nos não tê-los, mas este mesmo pode ser um caminho a um coração mais puro e com prioridades mais claras. Deus não nos promete menos que isso, e sim muito mais.

Basta ver algumas das coisas maravilhosas que Jesus Cristo nos promete: promete dizer-nos sempre a verdade. Promete nos amar sempre, incondicionalmente. Promete-nos tudo o que necessitamos para chegar ao céu. Promete que nunca nos exigirá mais do que podemos oferecer. Promete estar sempre conosco e nunca nos deixar sozinhos. Promete dar sentido e valor a todos nossos sacrifícios, lutas, provas e trabalhos. Promete ser nosso prêmio eterno.

Estas coisas não são menos importantes que a seguridade no emprego! São maiores, mais importantes! Deus é o único que pode oferecer tais promessas e cumpri-las.

Entretanto, esta confiança em Deus não nos exime de nossas responsabilidades. O segredo está em identificar bem qual é nossa parte e qual parte corresponde a Deus. A virtude da humildade nos ajuda a dar-nos conta de que dependemos de Deus para muitas coisas. Não podemos caminhar sós pela vida; necessitamos da amizade de Deus em cada momento. Mas este reconhecimento sincero de nossa dependência de Deus não nos deveria levar à abdicação de nossas responsabilidades.

Deus nos criou livres, capazes de compromissos e capazes de dominar nossos projetos. No final das contas, não se trata de “ou Deus ou eu”, mas ele nos convida a partilhar de uma responsabilidade com ele. Recorde que Jesus não só compara seus seguidores aos pássaros do céu e lírios do campos. Também nos compara ao administrador fiel, que sabe como distribuir a comida aos servos no momento oportuno. (Lc 12, 42). Compara-nos aos servidores encomendados com os bens do dono, para administrá-los e “negociar” com eles (Lc 19,13). Lembra seus discípulos que os trabalhadores são poucos e pede-lhes para orar ao Dono da colheita que envie operários para sua messe (Lc 10,2). Jesus Cristo quer que confiemos, mas também que lance-mos as mãos e trabalhemos.

Todos passamos por momentos difíceis e às vezes o que mais necessitamos é de que alguém nos direcione e nos recorde que Deus é fiel, que a confiança é possível e que, pesar de nossos sofrimentos mais profundos, e inclusive nossos remorsos, somos amados!

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