terça-feira, 25 de novembro de 2008

Deus existe?

Por ocasião do Dia de Cristo Rei, solenidade que todos os anos fecha o tempo litúrgico, o Pe. Raniero Cantalamessa, pregador do Papa, nos trouxe uma excelente reflexão sobre o impacto da crença da existência de Deus na vida do homem. Para isso, lançou mão de entrevistas a cientistas que haviam participado, há poucos dias, de uma sessão plenária da Academia Pontifícia das Ciências, com o tema «Olhares científicos em torno da evolução do universo e da vida», com a participação dos mais importantes cientistas do mundo inteiro, crentes e não-crentes, muitos deles prêmios Nobel. O encontro se deu no Vaticano em Novembro de 2008.

O momento não poderia ser mais oportuno, já que este começo de milênio se caracteriza por uma intensa discussão sobre criacionismo e evolucionismo. E de uma forma muito interessante o pregador do Papa faz este tema convergir para o fim último do homem – o julgamento final. Ele começa:

“O mundo não vem do acaso e não acabará por acaso. Começou com uma palavra: «Faça-se a luz... Façamos o homem» e terminará com uma palavra: «Vinde, benditos... Afastai-vos de mim, malditos». Em seu princípio e em seu final está a decisão de uma mente inteligente e de uma vontade soberana.”

Em seguida, ele comenta que, mesmo entre os que defendem a teoria Darwinista do evolucionismo, há dois posicionamentos divergentes. Embora a primeira corrente defenda que “o mundo é fruto de uma evolução cega, dominada pela seleção das espécies”, a segunda afirma que “a obra de Deus no mesmo processo evolutivo”.

Ao perguntar ao professor Francis Collins, chefe do grupo de pesquisa que levou ao descobrimento do genoma humano, se ainda restava espaço pra Deus diante da constatação de que a evolução é certa, obteve a seguinte resposta:

«Darwin tinha razão em formular sua teoria segundo a qual descendemos de um antepassado comum e houve mudanças graduais no transcurso de longos períodos, mas este é o aspecto mecânico de como a vida chegou ao ponto de formar este fantástico panorama de diversidade. Não responde à pergunta sobre por que existe a vida. Há aspectos da humanidade que não são facilmente explicáveis, como nosso senso moral, o conhecimento do bem e do mal, que às vezes nos induz a realizar sacrifícios que não estão ditados pelas leis da evolução, que nos sugerem preservar-nos a toda custa. Esta não é talvez uma prova que nos indica que Deus existe?»

Também perguntou ao professor Collins sobre sua crença em Deus ou em Jesus Cristo:

«Até os 25 anos fui ateu, não tinha uma preparação religiosa, era um cientista que reduzia quase tudo a equações e leis da física. Mas como médico, comecei a observar as pessoas que tinham de enfrentar o problema da vida e da morte, e isso me fez pensar que meu ateísmo não era uma idéia enraizada. Comecei a ler textos sobre as argumentações racionais da fé que não conhecia. Em primeiro lugar, cheguei à convicção de que deve existir um Deus que criou tudo isso, mas não sabia como era este Deus. Isso me moveu a levar a cabo uma busca para descobrir qual era a natureza de Deus, e a encontrei na Bíblia e na pessoa de Jesus. Após dois anos de busca, me dei conta de que não era inteligente opor resistência e me converti em um seguidor de Jesus».

Oportunamente, o Pe. Cantalamessa cita um grande autor do evolucionismo ateu de nossos dias, o inglês Richard Dawkins, autor do livro «God Delusion» (a desilusão de Deus). Este autor promove uma campanha publicitária que propõe colocar nos ônibus das cidades inglesas esta inscrição: «Deus provavelmente não existe: deixe de angustiar-se e curta a vida» («There's probably no God. Now stop worrying and enjoy life»). E então, constata: “«Provavelmente»: portanto, não se exclui totalmente que possa existir! Mas se Deus não existe, o crente não perdeu quase nada; se, ao contrário, Ele existe, o não-crente perdeu tudo”.

A partir daí, o pregador do papa conclui:

“Eu me coloco no lugar do pai que tem um filho deficiente, autista ou gravemente enfermo, de um imigrante que foge da fome ou dos horrores da guerra, de um operário que ficou sem trabalho, ou de um camponês expulso de sua terra... Pergunto-me como ele reagiria a esse anúncio: «Deus não existe: deixe de angustiar-se e curta a vida».

A existência do mal e da injustiça no mundo é certamente um mistério e um escândalo, mas sem fé em um juízo final, seria infinitamente mais absurda e trágica. Em tantos milênios de vida sobre a terra, o homem se adaptou a tudo; adaptou-se a todos os climas, imunizou-se contra toda doença. Mas a uma coisa ele não se adaptou nunca: à injustiça. Continua sentindo-a como intolerável. E a esta sede de justiça responderá o juízo universal.

Este não será só querido por Deus, mas, paradoxalmente, também pelos homens, também pelos ímpios. «No dia do juízo universal, não será só o Juiz o que descerá do céu – escreveu o poeta Claudel –, mas toda a terra se precipitará ao seu encontro.»”

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