domingo, 19 de outubro de 2008

Autenticidade da Palavra de Deus

TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE A BÍBLIA - 2ª parte 
Autenticidade da Palavra de Deus
Inspiração e regulamentação (cânon) da Bíblia

Por Anderson Pontes
Publicado originalmente em 13 de setembro de 2005

Inspiração 
Todos os livros da Bíblia são inspirados por Deus. Ela teve muitos escritores ao longo do tempo, às vezes com intervalo de centenas de anos de um para o outro. Porém, em todos eles, era Deus quem os inspirava a escrever apenas o que Ele queria. Quem utilizava seu punho pra escrever era o autor humano, mas quem infundia idéias na cabeça do autor era Deus.

Com a palavra "inspiração" queremos dizer: um influxo sobrenatural sobre o autor humano para escrever tudo o que Deus quer.

"Toda escritura é inspirada por Deus" (2Tm 3,16; 2Pd 1,21).

Foi desta forma que Moisés, Davi e Esdras tornaram-se os maiores escritores do Antigo Testamento e os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João - além do apóstolo Paulo - tornaram-se os maiores do Novo Testamento.

Regulamentação da Bíblia
Mesmo sendo Palavra inspirada por Deus, ela foi escrita por homens.

É interessante observar que Jesus Cristo não escreveu nem mandou que seus apóstolos escrevessem qualquer livro para as gerações seguintes. Mandou pregar o Evangelho a toda a criatura até os confins da terra. O primeiro evangelho foi escrito mais de 30 anos depois da morte (e ressurreição) de Jesus.

Diante disso e da necessidade que temos de saber onde realmente está a vontade de Deus, sua Palavra e Seus mandamentos se faz necessário distinguir que livros foram inspirados por Ele. E nisso, nos dias atuais, há polêmica.

Alguns conceitos preliminares que nos ajudaram a entender melhor este ponto:
  • Cânon (ou cânone) - lista dos livros inspirados e válidos
  • Livros Protocanônicos - o autor e origem foi definida num primeiro momento;
  • Livros Deuterocanônicos - a autoria e a origem foram definidos posteriormente;
  • Livros Apócrifos - não se conhece o autor ou a origem.

Novo Testamento - Os apóstolos começaram a escrever os livros que hoje compõem o NT já no final de suas vidas, e Paulo muitas vezes escreveu suas cartas quando estava preso, de forma que a mensagem não permanecesse presa com ele.

Entretando, muitos outros textos foram escritos nos primeiros séculos, causando até alguma confusão na hora de saber o que era escritura inspirada e o que não era. Por isso, no ano 381 da era cristã, durante o Concílio de Constantinopla, o Papa Dâmaso (o mesmo que mandou traduzir para o latim) definiu que os livros inspirados do NT são só os que todos nós conhecemos e aceitamos. E esta definição é aceita até hoje por todos os cristãos, independente da denominação (Católicos, Evangélicos e seitas).

Antigo Testamento - Já quanto ao AT a questão é mais complexa - ou parece ser. O fato é que os próprios judeus não estavam de acordo sobre os livros que deveriam compor o AT, isto é, quais realmente eram inspirados por Deus. Eles estavam divididos em duas correntes, e por isso podemos dizer que utilizavam duas Escrituras diferentes: eram a Bíblia Palestinense ou Esdrina e a Bíblia Alexandrina ou dos Setenta.

A Bíblia dos Setenta continha os livros Protocanônicos e Deuterocanônicos. A Bíblia Esdrina contava apenas com os Protocanônicos. Há muitas variáveis ou motivações para os dois lados, e essa discussão permanecia até depois do nascimento, morte e ressurreição de Cristo.

Para nós, entretanto, interessa-nos saber o seguinte:

1. Entre os cristãos, não havia esta polêmica. Isso porque já os primeiros Apóstolos de Jesus o valor dos Deuterocanônicos e assim transmitiram na comunidade primitiva. Isso tanto é verdade que o Novo Testamento está recheado de citações destes livros.

Pra não citar as centenas de vezes, eis as 44 encontradas já no primeiro livro no NT (Evangelho segundo São Mateus):
Mt 4,4 = Deut 8,3 ; Mt 4,15 = 1Mc 5,15 ; Mt 5,18 = Br 4,1 ; Mt 5,28 = Eclo 9,8 ; Mt 5,2-4 = Eclo 25,7-12 ; Mt 5,4 = Eclo 48,24 ; Mt 6,7 = Eclo 7,14 ; Mt 6,9 = Eclo 23,1.4 ; Mt 6,10 = 1Mc 3,60 ;  Mt 6,12 = Eclo 28,2 ; Mt 6,13 = Eclo 33,1 ; Mt 6,20 = Eclo 29,10-11 ; Mt 6,23 = Eclo 14,10 ; Mt 6,33 = Sb 7,11 ; Mt 7,12 = Tb 4,15 / Eclo 31,15 ; Mt 7,16 = Eclo 27,6 ; Mt 8,11 = Br 4,37 ; Mt 8,21 = Tb 4,3 ;  Mt 9,36 = Jdt 11,19 ; Mt 9,38 = 1Mc 12,17 ; Mt 10,16 = Eclo 13,17 ; Mt 11,14 = Eclo 48,10 ; Mt 11,22 = Jdt 16,17 ; Mt 11,25 = Tb 7,17 / Eclo 51,1 ; Mt 11,28 = Eclo 24,19 / Eclo 51,23 ; Mt 11,29 = Eclo 6,24-25 / Eclo 6,28-29 / Eclo 51,26-27 ; Mt 12,4 = 2Mc 10,3 ; Mt 12,5 = Eclo 40,15 ; Mt 13,44 = Eclo 20,30-31 ; Mt 16,18 = Sb 16,13 ; Mt 16,22 = 1Mc 2,21 ; Mt 16,27 = Eclo 35,22 ; Mt 17,1 = Eclo 48,10 ; Mt 18,10 = Tb 12,15 ; Mt 20,2 = Tb 5,15 ; Mt 22,13 = Sb 17,2 ; Mt 23,38 = Tb 14,4 ; Mt 24,15 = 1Mc 1,54 / 2Mc 8,17 ; Mt 24,16 = 1Mc 2,28 ; Mt 25,35 = Tb 4,17 ; Mt 25,36 = Eclo 7,32-35 ; Mt 26-38 = Eclo 37,2 ; Mt 27,24 = Dn 13,46 ; Mt 27,43 = Sb 2,13 / Sb 18-20 . Por si só, este argumento já é bastante forte.

2. Mesmo que os Judeus viessem a definir como inspirados apenas os Protocanônicos, essa decisão não teria valor para os cristãos, uma vez que os judeus, na Nova Aliança, não tinham mais autoridade do que os próprios Apóstolos na Igreja primitiva. Os ensinamentos de Jesus transcendiam o alcance do discernimento dos judeus.

Pra se ter idéia de como os judeus, já no primeiro século, divergia dos cristãos, a corrente que rejeitava os Deuterocanônicos (que era maioria entre os judeus) também não aceitava como Palavra de Deus nenhum dos livros do Novo Testamento. Então, se não vamos aceitar os Deuterocanônicos porque os judeus nos sugerem isso, então não devemos rejeitar também os Evangelhos?

No meio cristão só se veio discutir o cânon do AT no século IV, quando São Jerônimo, o mesmo que traduziu a Bíblia para o latim por ordem do Papa Dâmaso, foi morar na Palestina e se deixou influenciar pelos judeus alí residentes. Mas a questão foi resolvida logo, sem grandes repercussões.

A canonicidade da Bíblia que usamos hoje, com seus 73 livros, foi afirmada e reafirmada nos seguintes Concílios (reunião de bispos): Roma (382), Hipona (393), Cartago (397), Florença (1441) e Trento (1546).

Impacto da Reforma Protestante no Cânon... duas Bíblias cristãs? 
No episódio que conhecemos como Reforma Protestante, no início do século 16, Martinho Lutero (ex-religioso agostiniano) voltou a discutir a canonicidade dos livros do AT. Quando fez sua tradução para o alemão, pouco depois da invenção da imprensa (já no início do século XVI) já excluia tais livros, fazendo com que a Bíblia Protestante possuisse apenas 66 livros, em vez dos 73 da Bíblia Católica que já vinham sendo difundidos desde o princípio da era cristã.

Eis os livros rejeitados e excluídos da versão luterana (também rejeitados pelos judeus na Bíblia Esdrina): Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1º Macabeus e 2º Macabeus. E também os capítulos 10 a 16 do livro de Ester e os 3, 13 e 14 do livro de Daniel.

Os bispos, como sucessores dos primeiros Apóstolos, autenticam as edições Católicas da Bíblia. Esta autenticação é reconhecida pela palavra Imprimatur (imprima-se) que encontra-se numa das primeiras páginas (geralmente na página das referências bibliográficas).

Além desta autenticação e do fato de que só as católicas possuem os 73 livros, há ainda uma característica da Bíblia Católica que nem sempre existe na Bíblia Protestante: as notas explicativas de rodapé, presentes em cada página das Escrituras.

Para refletir e responder:
1. Qual o papel do divino Espírito Santo sobre os escritores da Bíblia?
2. Como chegou até nós a Bíblia desde que o Papa definiu os livros inspirados no ano 381?
3. Que argumentos temos para acreditar que os livros Deuterocanônicos foram inspirados por Deus? 
4. Quando surgiu a Bíblia Protestante? No que difere da Bíblia Católica?

Nenhum comentário: